sábado, 10 de fevereiro de 2007

Lendas do Rio Grande - Negrinho do Pastoreio

Esta pintura está localizado no Palácio Piratini, Sede do governo do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, e é do mestre Italiano Aldo Locatelli.

Bueno... ao aceitar a sugestão do meu Amigo André, começo a falar das coisas do pago, inclusive suas lendas e tradições.

Saliento que existem algumas versões para a mesma lenda, mas como não tenho a pretensão de ditar normas e sim repassar mui humildemente alguma coisa da nossa gloriosa e abundante cultura, vou citar, suscintamente o que reza a lenda como me foi, atavicamente, passada.

Nos tempos de escravidão, perto do final do século XIX, em alguma estância nos pagos do Rio Grande do Sul, um estancieiro, sem piedade alguma em seu coração, manda um dos seus escravos, um negrinho, beirando os quatorze anos, pastorear seus cavalos e que os trouxesse em segurança até a sede da estância. Ao chegar com a tropilha, feliz por julgar estar obedecendo á risca a ordem do patrão, o negrinho foi impiedosamente chicoteado, pois o patrão percebeu a falta de um dos seus cavalos, um baio de cabos negros. Após a surra, ainda teve, o negrinho, que retornar ao campo para localizar o cavalo extraviado. Localizando-o, após horas de procura sob a luz ínfima de uma vela, o negrinho ainda, em frustrada tentativa de laçar o animal, vê o laço estourar e afastar ainda mais o objeto de sua procura. Não conseguindo êxito na sua campereada, este volta para a estância com o coração apertado e com a certeza de mais um castigo, fato que realmente se concretizaria através das mãos fortes e da transferência odiosa do castigo repassado contundentemente pelos tentos de um chicote. Não obstante a isso, o patrão ainda o deixa nu, e como forma de castigo mais cruel pelo ocorrido, o amarra em cima de um formigueiro no campo para que as formigas ainda o torturassem com suas picadas. Passado um dia do ocorrido, e sem remorso algum em sua consciência, o patrão foi ao local para verificar o estado do negrinho que, para seu espanto e incredulidade, estava em pé, sem marca alguma dos ferimentos das formigas e das chicotadas sobre a pele e com a Virgem Nossa Senhora ao seu lado. O patrão então caiu de joelhos implorando perdão, pedido que não foi nem sequer respondido pelo negrinho, que após beijar a mão da Nossa Senhora, partiu montado no baio ponteando a tropilha.

Desde então, ao se perceber o extravio de alguma coisa, apela-se ao Negrinho do Pastoreio, acendendo um toco de vela, para que ajude-nos a encontrar o bem:

Foi aqui que eu perdi
Mas Negrinho vai me ajudar
e se ele não achar
Ninguém mais conseguirá!

e assim reza a lenda...

truco adelante !!

estância - propriedade rural
pagos - referencia a terra, localidades e/ou cidades
pastorear - analogia ao pastor. cuidar e/ou buscar ovinos/bovinos/equinos
tropilha - coletivo de animais - equinos
baio de cabos negros - pelagem de cavalo - ja descrito em topicos anteriores
laço estourar - diz-se que o laço estoura quando ele arrebenta os tentos trançados
extraviado - perdido, sem localizacao exata
chicote - artefato com tentos (tiras de couro cru) trançadas na ponta de um cabo de madeira utilizados para castigar animais
ponteando - ir a cavalo à frente da tropilha

6 comentários:

Anônimo disse...

parabens pela iniciativa. segue a mais famosa poesia sobre o tema. do saudoso Barbosa Lessa.

Negrinho do Pastoreio
Barbosa Lessa

Negrinho do Pastoreio
Acendo essa vela pra ti
E peço que me devolvas
A querência que eu perdi

Negrinho do Pastoreio
Traz a mim o meu rincão
Eu te acendo essa velinha
Nela está o meu coração

Quero rever o meu pago
Coloreado de pitanga
Quero ver a gauchinha
A brincar na água da sanga

E a trotear pelas coxilhas
Respirando a liberdade
Que eu perdi naquele dia
Que me embretei na cidade

Barcellos disse...

verdade... tens razão... ao tocar no nome do Barbosa Lessa, sugere o tema do proximo post. o Grupo dos Oito.

Cleverson disse...

Pois é... Foi uma baita idéia do Andre mesmo e muito bem executada neste post por ti.

Já conhecia a lenda do Negrinho, mas é sempre bom ler mais coisas a respeito de nossa tradição e principalmente quando é tão bem escrito e explicado.

Parabéns!

[]'s

Andre Almeida disse...

Eu também já conhecia essa lenda, mas estava meio apagada na minha memória. Bom relembrar contos da nossa cultura.

Alias, será que se eu pedir pro Negrinho do Pastoreiro achar um celular, mp3 player e uns DVDs que ficaram por aí ele dá um jeito de isso voltar pra mim? hehehehehehe

Abraços

Anônimo disse...

Devo muitas graças ao Negrinho do Pastoreiro, no meu emprego sumiu um documento extraviado e o meu patrão estava desconfiando que eu havia roubado,isso aconteceu em 24/05/2007.,no sabado acendi uma vela para ele com muita fé e hoje na segunda feira dia 28/05/2007, o documento foi encontrado e esta com o seu verdadeiro dono. devo muito a ele.L.A.V.L SP, 28/05/2007

Bruno Savini disse...

Linda, simplesmente linda. Coisas de meu país...
Sempre me emociono quando busco estes tipos de leitura sobre as lendas do meu Brasil, a do negrinho é uma das que mais gosto, quando lia, buscava um sotaque sulista para ilustrar ainda mais as imagens que se formavam em minha mente.
E a música. Barbosa Lessa pintou esse quadro musicalmente de uma forma muito poética.

Lindo!